Homens afeminados são desejados por mulheres cansadas de ‘hétero top’
Cruzar as pernas, gesticular ao falar, chorar, usar roupas coloridas ou demonstrar sensibilidade. Atitudes como essas, quando partem de homens heterossexuais, ainda costumam ser rotuladas como “afeminadas” — muitas vezes de forma pejorativa. No entanto, esse comportamento tem se tornado justamente o que atrai mulheres cansadas do estereótipo do “hétero top”, associado à masculinidade rígida, machista e pouco emocional.
O tema ganhou visibilidade com exemplos entre celebridades. A cantora Marina Sena namora o dançarino Juliano Floss, que chamou atenção ao chorar no BBB 26 ao lembrar da namorada por meio de uma jaqueta com o perfume dela. A cena viralizou e
Outro exemplo citado com frequência é o da atriz Bruna Marquezine, que já se relacionou com homens como João Guilherme e o cantor canadense Shawn Mendes — ambos frequentemente questionados sobre sexualidade justamente por fugirem do padrão tradicional de masculinidade. Todos, no entanto, afirmam ser seguros quanto à própria orientação sexual.
Para o cozinheiro Dery Lima, 31 anos, ser confundido com gay sempre foi algo comum. Desde a escola, ele relata ser visto como afeminado por ter cabelo comprido, aparência considerada “fofa” e comportamento tímido. Na vida adulta, o julgamento continuou por causa da forma de se vestir e de se expressar. “Não lembro de uma vez em que acharam de cara que eu fosse hétero”, conta. Ainda assim, ele diz lidar bem com isso. “Se não está no esperado da performance da masculinidade, acham estranho”, resume.
Segundo Dery, desconstruir a masculinidade hegemônica passou por aprender a nomear sentimentos, se expressar melhor e evitar padrões que presenciou dentro de casa. Ele afirma já ter ouvido de mulheres que esse jeito mais sensível é justamente o que desperta interesse.
Depois de experiências frustrantes, a especialista em torra de café Júlia Cabral, 28, decidiu se afastar desse padrão. Segundo ela, homens muito presos à masculinidade tradicional têm dificuldade de compreender o outro e de se conectar emocionalmente. “A sedução do homem doce encanta, conquista e olha diferente. Existe muito tesão em alguém que não tem medo de ser quem é”, relata.
A preferência, segundo especialistas, tem explicação social. Para a pesquisadora Vera Gasparetto, do Instituto de Estudos de Gênero da UFSC, a sociedade construiu historicamente papéis rígidos: mulheres sensíveis e homens fortes, provedores e dominantes. “Esse modelo prejudica os dois lados e está diretamente ligado à violência de gênero”, afirma. Ela observa que muitos homens heterossexuais já não se reconhecem nesse padrão e buscam outras formas de se relacionar.
De acordo com Gasparetto, o chamado afeminado é, muitas vezes, apenas um homem que demonstra delicadeza, gentileza e cuidado, características socialmente atribuídas ao feminino — e, por isso, desvalorizadas. “Quando o feminino é visto como inferior, qualquer homem que se aproxime disso é alvo de piadas e questionamentos”, explica.
Para especialistas, a preferência por homens afeminados reflete um cansaço coletivo com a masculinidade tóxica e um desejo por relações mais honestas, empáticas e emocionalmente disponíveis — algo que muitas mulheres dizem não encontrar no padrão do hétero top.
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